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Como começou a onda do rolezinho

Posted on 25 janeiro 2014 by Equipe Café com Notícias

O encontro de jovens se tornou o assunto do país, preocupa os governantes e provocou discussão até no Palácio do Planalto

Quem chega de metrô a Itaquera, no extremo leste da cidade de São Paulo, avista da janela do trem o Itaquerão. O estádio, que receberá a partida de abertura da Copa do Mundo de 2014, em 12 de junho, dá as boas-vindas a quem visita o bairro – e deverá se transformar, ao longo dos próximos meses, numa das imagens mais conhecidas do Brasil fora do país. A seu redor, Itaquera, lar de mais de 204 mil paulistanos, sofre profundas transformações. Além das obras do estádio, o aumento do poder de compra da nova classe média alterou a fisionomia do lugar. Atraído pelo novo momento econômico, o Shopping Metrô Itaquera foi o primeiro grande empreendimento a surgir na região, em 2007. Na semana passada, porém, a área comercial de 43.000 metros quadrados, erguida de frente para a arena, ganhou o noticiário de forma totalmente inesperada – sem nenhuma ligação com a Copa ou com a prosperidade da nova classe média. A palavra que saiu de Itaquera e ganhou o país foi “rolezinho”.

Foi assim: 6 mil jovens, a maioria deles com idade entre 14 e 17 anos, responderam pelo Facebook a um convite para se reunir e ouvir funk ostentação – variante do ritmo que exalta o consumo e as roupas de grife – no estacionamento do Shopping Metrô Itaquera, em 7 de dezembro. O shopping é o principal ponto de lazer da região. É ali que os adolescentes se encontram corriqueiramente, para ver os amigos, comer no McDonalds e ir ao cinema. Quando a reunião no estacionamento começou, a segurança do shopping tentou dispersar a garotada. Mas eles, em lugar de ir embora, rumaram para o interior do prédio. Quem lá estava pensou tratar-se de um arrastão, e a confusão se instalou. E os brasileiros ouviram falar pela primeira vez do rolezinho, um fenômeno cultural que ocorre rotineiramente na periferia de São Paulo e que, até então, havia passado despercebido. Depois da correria no Shopping Metrô Itaquera, tudo mudou. O rolezinho foi sequestrado ideologicamente e virou palavra de ordem. Radicais de um lado viram uma tentativa de integração forçada dos excluídos. Radicais do outro lado tomaram o grupo de jovens como uma ameaça social, um exemplo de baderna a ser contida – pela força, se necessário. A rigor, não se trata nem de uma coisa nem de outra.

CASAL QUE BOMBA Luana Thalia e Daniel Santos, ambos de 16 anos. Antes dos rolezinhos eles já eram ídolos e atraíam fãs (à esq.) ao shopping (Foto: Marcelo Min/Fotogarrafa/ÉPOCA)

O rolezinho, segundo ÉPOCA apurou em longas conversas com seus participantes e organizadores, é um encontro de jovens marcado pelas redes sociais. Preferencialmente o Facebook. Pela rede social, milhares deles combinam uma data para ir ao shopping “curtir, tumultuar e tirar várias fotos”. O rolezinho começa na internet, e toda a sua mecânica depende da rede. Quem cria o evento – geralmente um garoto desconhecido – se ocupa de convidar gente famosa no bairro: meninas e meninos cujos perfis na rede social têm até dezenas de milhares de seguidores, que são chamados de “ídolos”. “Para funcionar, o rolezinho precisa ter o ídolo”, diz Matheus Lucas Bernardo, de 16 anos e mais de 30 mil fãs virtuais no Facebook. “Se chamar o ídolo, as meninas virão. E os meninos virão atrás das meninas.” Matheus foi ao shopping encontrar as garotas que o assediam nas redes sociais, suas fãs. Basta passear pelas fotos do garoto no Facebook para cruzar com declarações apaixonadas das meninas, que elogiam cada comentário que ele publica: “Elas me dão presentes. Uma já mandou um tênis de R$ 600”, diz ele. Com outros dois amigos, foi aos dois eventos marcados no Shopping Metrô Itaquera, mas diz que não quer mais participar – durante o último rolezinho, o boné de um amigo dele foi furtado.

Findo o rolezinho, a graça é voltar para o Facebook e publicar as imagens do encontro. Quem vai ao rolezinho quer ver e ser visto. “Os jovens têm um anseio muito grande por visibilidade e expressão”, afirma Alexandre Barbosa Pereira, antropólogo e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Os Racionais MC’s, na música ‘Da ponte pra cá’, dizem algo que explica muito bem esse desejo da juventude: ‘Quem não quer brilhar? Quem não? Mostra quem. Ninguém quer ser coadjuvante de ninguém’. Os encontros nos shoppings possibilitam tudo isso.” Por que no shopping? Porque os adolescentes gostam do ambiente. Gostam das lanchonetes, das lojas, dos cinemas. Gostam dos corredores bem iluminados e do ar-condicionado que ameniza o calor do verão. Em Itaquera ou no Leblon, em Moinhos de Vento ou na Savassi, os jovens brasileiros transformaram os grandes centros comerciais em seu lugar de encontro favorito – com a aprovação, inclusive, dos pais, que percebem os shoppings como lugares seguros.

A maioria dos adolescentes que foram aos rolezinhos já frequentava os shoppings de bairro onde os eventos ocorreram. Os shoppings são para eles uma segunda casa. “Os meninos que vieram são clientes nossos”, diz Eduardo da Silva, subgerente da Bansurf. No Shopping Metrô Itaquera, a Bansurf vende material de surfe, camisetas e tênis, produtos com apelo em meio a esse público jovem. Durante os rolezinhos, Eduardo baixou as portas – o rolezinho causa uma confusão que espanta os clientes, atrapalhando o ganha-pão dos lojistas. Eduardo tem uma teoria sobre os encontros que afetam seu negócio. “Falta espaço de lazer para essa molecada. É um movimento meio rebelde.”  Não é bem verdade que Itaquera não ofereça outras opções. A subprefeitura do bairro lista três bibliotecas, 12 centros culturais, dois CEUs (que funcionam como escolas e centros de atividades), três parques e três clubes. O Sesc Itaquera, também próximo, reúne famílias em dias de calor. Nenhum desses lugares, porém, atrai os adolescentes como o shopping. “O centro cultural e os parques não têm o mesmo glamour das lojas do shopping”, diz o vereador Nabil Bonduki, do PT, ex-secretário de Urbanismo de São Paulo. Ao redor de Itaquera, diz ele, há oito bairros que reúnem, aproximadamente, 3 milhões de moradores. Há um único shopping para recebê-los. No centro ampliado de São Paulo, onde vivem 1,5 milhão de pessoas, existem 15 shoppings.

A dinâmica do rolezinho (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA, Julia Rodrigues/ÉPOCA, Marcelo Min/Fotogarrafa/ÉPOCA e Renato Mendes/Futura Press/Folha)

O rolezinho de Itaquera no dia 11 ganhou repercussão também pela ação da polícia. Buscando dispersar os jovens aglomerados do lado de fora, no terminal de ônibus, policiais militares usaram balas de borracha e bombas de efeito moral. O encontro de jovens, que começara por volta das cinco e meia da tarde, terminou melancólico duas horas depois. Um menor de idade foi detido pela polícia e encaminhado para a Vara da Infância e da Juventude. Na segunda-feira 13, o governador Geraldo Alckmin disse que a Corregedoria da Polícia Militar apuraria se os policiais cometeram abusos. Às 8 da noite, apesar da confusão, ninguém diria que algo fora do comum acabara de acontecer, apesar do shopping vazio em pleno final de semana. “Se eles quisessem quebrar as lojas, conseguiriam. É muita gente para conseguir controlar”, diz Wesley Machado, dono do Wdog, um quiosque de cachorro-quente no shopping. No primeiro rolezinho em dezembro, Machado manteve o ritmo de vendas – famintos, os garotos vieram comer. Nos dois rolezinhos seguintes, com a correria maior, houve prejuízo, e o faturamento caiu cerca de 30%.

Embora tenham alcançado a fama só agora, as reuniões na periferia de São Paulo convocadas pela internet acontecem desde os tempos do Orkut. Pelas comunidades da rede social anterior ao Facebook, jovens já marcavam encontros no estacionamento de shoppings para improvisar rimas, ver a galera, dançar e curtir. Eram atraídos pelos grupos de DJs, MCs e dançarinos que ajudaram a popularizar o funk da ostentação, a variação do funk carioca que, em vez de fazer apologia das drogas, da pornografia e da violência, exalta as grifes, os carrões e as mulheres. A maior estrela da safra atual dessa vertente, o MC Guimê, fez tanto sucesso que extrapolou as margens da cidade. Hits  como “Tá patrão” (Tênis Nike Shox/Bermuda da Oakley/Camisa da Oakley/olha a situação) e “Plaque de 100” (De transporte nois tá bem/de Hornet ou 1100/Kawasaky tem Bandit/RR tem também) embalam a noite de baladas de luxo, como o Club A. Seu clipe País do futebol tem a participação do jogador Neymar e do rapper Emicida.

A explosão dos funkeiros – e da cultura da ostentação, que fez a cabeça dos jovens da periferia – levou aos shoppings um novo fenômeno do ano passado para cá: os encontros de fãs. Eles são os precursores dos rolezinhos. Divulgados principalmente pelo Facebook, reúnem grupos grandes de admiradores em torno de seus MCs preferidos, meninos em geral menos conhecidos do que Guimê. Num encontro do MC Gui (o nome é parecido, mas trata-se de outro) no estacionamento do Shopping Metrô Itaquera, em abril do ano passado, centenas de meninas e meninos histéricos se empurravam na tentativa de mirar suas câmeras e celulares na direção do ídolo teen.

ROLEZINHO NUNCA MAIS A lojista Paula Mariotti e a filha, Malu. A menina foi escondida e levou um susto com o tumulto (Foto: Marcelo Min/Fotogarrafa/ÉPOCA)

Febre entre os MCmaníacos, o encontro de fãs inspirou novas versões desses eventos. No lugar de um MC conhecido por suas letras que valorizam o luxo, são os “famosinhos” do Facebook que atraem multidões de fãs aos shoppings da periferia. Por “famosinhos” – ou “ídolos” – entenda-se adolescentes comuns que usam as redes para se promover com vídeos caseiros e autorretratos, os selfies. Os mais cultuados entre eles ultrapassam os 100 mil seguidores no Facebook.

Diva, Princesa do Castelo Rosa, Gata do Site. Esses são alguns dos apelidos carinhosos dados pelas fãs à paulista Luana Thalia, de 16 anos, de Mogi das Cruzes. Luana é uma celebridade virtual. Uma rápida busca do seu nome na internet dá uma dimensão do porquê. Tal como um ídolo da música ou do cinema, coleciona páginas no Facebook e blogs criados em sua homenagem. Na rua, no supermercado ou na manicure da vizinhança, ela é sempre abordada para tirar fotos, distribuir beijos ou ganhar presentes. Certa vez, recebeu a visita de uma garotinha de Minas Gerais que, na companhia do pai, deslocou-se do Estado vizinho só para vê-la. Outra fã desistiu de uma entrevista de emprego para ir a um encontro promovido por Luana. “Não sou atriz, não sou cantora, não fiz nada para mudar o mundo. Não entendo por que tanta gente gosta de mim”, diz. “Não tem como não dar valor para essas meninas”, afirma, deixando clara sua humildade, qualidade curiosamente das mais prezadas entre a turma dos rolezinhos – que tanto gosta de ostentar.

De tomara que caia de franjas, short no limite do bumbum, cabelo pintado de preto e dois piercings (de argola no nariz e de strass vermelho na barriga), Luana tem postura e corpo de mulherão. É o ideal de feminino para as pequenas admiradoras, a maioria meninas mais jovens. Não bastasse a estética privilegiada, ela dispensa uma boa dose de atenção diária – chega a passar 12 horas seguidas na internet – a essas adolescentes ultraconectadas, carentes e ansiosas por ser aceitas no mundo. Para conversar com as garotas, Luana usa, além do Facebook e do YouTube, uma rede social bastante popular entre elas, chamada Ask. O funcionamento é simples: alguém faz uma pergunta curta, o dono do perfil responde em poucas linhas. Há de questionamentos práticos (“Luh vou compra minha melissa amanha qual vc acha melhor , dance hits ou ballet ?”) aos afetivos (“Lu porque é tão difícil arrumar a pessoa certa?”). Nessa mistura de consultoria de moda e consultório sentimental, Luana vê suas seguidoras se multiplicar.

Uma radiografia do bairro (Foto: ÉPOCA)

Namorado e parceiro de fama de Luana, Daniel Santos, de 16 anos – ou Divo, Príncipe do Cavalo Branco e Dan –, tem mais de 86 mil fãs no Facebook, 254 mil curtidas no Ask e 354 mil visualizações no vídeo mais acessado de seu canal de YouTube. Nele, o casal aparece dançando, fazendo caretas, beijando na boca e soltando “puns” – uma mistura de palhaçada, romantismo e nojeira que parece agradar a seu séquito de devotos. “Eles são engraçados, fofos, nojentos. Um casal de verdade”, afirma Agda Kovacs, de 13 anos. Tanta atenção já rendeu para a dupla um dinheirinho extra. Luana já recebeu roupas e salário para divulgar em suas redes lojas e baladas. Daniel ganha do YouTube pelas visualizações – investe tudo em bonés de marca (tem um da Quiksilver, R$ 80) e tênis caro (exibia um Nike Shox de R$ 600 na última semana).

A fama, no entanto, tem lá suas agruras. Quando o casal fez seu segundo e último encontro de fãs, em novembro passado (a ideia das reuniões partiu de uma admiradora), um mal-entendido gerado pelo tumulto prejudicou a imagem de Luana nas redes. Mais de 1.000 jovens, segundo eles, compareceram ao Shopping Tatuapé naquele dia. No meio da aglomeração, ela diz ter precisado se escorar numa fã depois de passar mal. Alguém fotografou o episódio e sugeriu que Luana estava empurrando a garota. A reação negativa foi imediata. “Fui muito julgada, não saía mais de casa, quase entrei em depressão”, diz Luana, que passou a receber uma enxurrada de críticas nas redes. Seu Facebook, na época com 150 mil fãs, foi denunciado por abuso e bloqueado. “A inveja acabou com o Face dela”, afirma Daniel.

É impossível explicar exatamente quando e como os encontros de fãs como o de Daniel e Luana viraram encontros de jovens para badalar em massa no shopping. Mas é certo que os rolezinhos atuais, com contornos de violência e polêmica, se valeram do know-how de divulgação pela internet, assim como da possibilidade de encontrar famosos – temperado pelo tédio das férias e pelo gregarismo incontrolável dos adolescentes. “Eu me sinto até um pouco culpada pelo que está acontecendo”, diz Luana.

Os organizadores dos rolezinhos mais recentes também estão preocupados com a repercussão negativa que eles tiveram. “É muito polêmico. Sempre tem quem aproveite para roubar e fazer baderna”, diz Jefferson Luis, organizador do segundo rolezinho a ganhar fama, o do Internacional Shopping Guarulhos, que aconteceu em 14 de dezembro passado. “É por isso que nos julgam mal”, afirma. Jefferson tem 20 anos e canta funk desde os 14. Começou se apresentando na escola, numa feira de artes. “Todo mundo cantava rock. Eu queria fazer algo diferente”, diz. As letras, na definição de seu autor, contam o dia a dia da comunidade onde vive, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Fazem um pouco de ostentação e valorizam a mulher. “Novinha, seu jeito me encanta, verdadeira rainha da noite”, canta numa das músicas. Fã do MC Daleste, Jefferson leva uma rosa tatuada no punho esquerdo – tal qual seu ídolo, assassinado em julho de 2013 – e uma cruz dourada no pescoço.

EM DEFESA  DOS CLIENTES Eduardo da Silva, subgerente de uma loja de surfe no Shopping Metrô Itaquera. Ele fechou as portas no dia do tumulto e diz que faltam opções de lazer  para os jovens (Foto: Marcelo Min/Fotogarrafa/ÉPOCA )

A maioria dos shows de Jefferson (ou MC Jota L) – um por mês, se muito – é gratuita. O objetivo é divulgar o próprio trabalho. A mãe, que muitas vezes o leva de carona até as apresentações, brinca que o fã número um de Jefferson é o irmão caçula, um menino de 11 anos. Como a música não garante dinheiro, o rapaz trabalha como ajudante-geral numa empresa que fornece som para eventos. Segundo de seis irmãos, saiu da escola para trabalhar: “Mas voltei agora que meu irmão terminou os estudos dele”. Foi durante as férias do supletivo que Jefferson teve a ideia de organizar um rolezinho no shopping. “É um lugar seguro, que a gente gosta de frequentar”, diz.

Jefferson mora à sombra do Internacional Shopping Guarulhos. O centro comercial é visível da esquina da casa do rapaz. “Aqui, nas férias, ou a gente empina pipa, ou fica no Facebook, ou vai ao shopping”, afirma. No dia 14 de dezembro, ele decidiu ir ao shopping. Chamou seus 2 mil amigos do Facebook para acompanhá-lo. Não definiu horário para o encontro: “Eu não queria que todo mundo chegasse junto, para não pensarem que era arrastão”, diz. “Até eu ia ficar com medo se visse 2 mil pessoas entrando de uma vez”. Duas mil e quinhentas pessoas apareceram. Circulando pelos corredores do shopping, os adolescentes batiam palma e repetiam os versos de Daleste: “Eita, p…, que cheiro de maconha”. A imprensa mostrou, no dia seguinte, fotos de seguranças de armas na mão abordando adolescentes. Vinte e três rapazes foram detidos pela polícia. Jefferson entre eles. Mantidos na delegacia até alta madrugada, foram liberados. Nenhum lojista ou cliente prestou queixa.

Conter os hormônios dos jovens nessa fase de angústia e autoafirmação torna-se quase impossível quando surge uma novidade que atrai todos os amigos – caso dos rolezinhos. Como segurar um filho em casa se todos os amigos dele confirmaram presença no Facebook? A lojista Paula Mariotti não conseguiu. Sem que soubesse, a filha e a sobrinha foram espiar o encontro que terminou em tumulto no Shopping Metrô Itaquera, em 7 de dezembro. Malu Mariotti, de 14 anos, e a prima Nathalia Guedes, de 12, chegaram quando a confusão ainda não havia começado, por volta das 16 horas. Como acharam que estavam menos arrumadas do que as outras garotas, decidiram correr de volta (no sentido literal mesmo) para o guarda-roupa para trocar o modelito – mais precisamente, encurtar os shorts. Quando voltaram, deram de cara com corre-corre e a presença dos policiais. “Elas chegaram aqui apavoradas”, afirma Paula. “Rolezinho de novo nem pensar. É mais fácil deixar as meninas irem a uma balada.”

O rolezinho, como os pais já perceberam, não é inteiramente inocente. A algazarra promovida por seus praticantes, eventualmente somada a pequenos crimes, prejudica de verdade os comerciantes. A prática, no entanto, é pacífica na origem – tem como principal objetivo a diversão – e não é política. As denúncias de violência policial no Shopping Itaquera, no entanto, geraram manifestações de solidariedade pelo país – uma delas prevista para o Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, e outra para o Shopping Iguatemi, em Brasília. Alguns políticos viram o roteiro dos protestos de junho se repetindo. Algo que começa despretensioso, num segundo momento une multidões de jovens de cidades diferentes, sobrevém a violência policial, e isso desencadeia um movimento de grandes proporções – que faz desabar a popularidade dos políticos.

CORRE-CORRE  EM ITAQUERA Frequentadores do shopping e rolezeiros no encontro do dia 11 de janeiro. O evento acabou em confusão (Foto: Robson Ventura/Folhapress)

Novos protestos, desde que sejam democráticos – ou seja, sem violência –, não são problema numa democracia e já são esperados para este ano de Copa do Mundo. O problema, para os cidadãos e para as autoridades, é descambarem para a violência. O temor de que isso aconteça com os rolezinhos chegou a ser discutido numa reunião ocorrida na terça-feira passada, no Palácio do Planalto. Os ministros Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, Marta Suplicy, da Cultura, José Eduardo Cardozo, da Justiça, e Luiza Bairros, da Igualdade Social, tratavam com a presidente Dilma Rousseff de ações culturais promovidas pelo governo durante a Copa do Mundo. Cardozo alertou sobre o perigo de que alguma violência policial durante os rolezinhos desencadeie o mesmo processo das manifestações de junho – que acabaram esvaziadas por causa da violência do outro lado, os black blocs.

O governo e a prefeitura de São Paulo expressam a mesma preocupação. As duas instâncias agiram afinadas como quando o prefeito Fernando Haddad e o governador Geraldo Alckmin cantaram “Trem das onze” num evento em Paris, em meados do ano passado. Expressando o pensamento de Alckmin, o secretário estadual de Segurança Fernando Grella Vieira disse que os rolezinhos não são uma questão policial, mas um “fenômeno cultural”. Afirmou que “evidenciam a necessidade de o poder público investir em opções de lazer para os jovens” e mandou um recado para a Polícia Militar, talvez pensando nos acontecimentos do Shopping Itaquera: “Cabe à polícia cuidar do espaço público. Shopping center é espaço privado”. Usando a mesma postura conciliadora, o prefeito Fernando Haddad designou o secretário municipal da Igualdade Racial, Netinho de Paula, para conversar com os líderes dos rolezinhos. O objetivo das conversas é desviar os eventos dos shoppings para espaços públicos – ideia à qual alguns “rolezeiros”, aparentemente, já aderiram.

Haddad e Grella agem da forma correta para esvaziar os que querem violência – os que demonizam os jovens, tratando-os como “bandidos”, e os que demonizam os comerciantes, acusando-os de “racistas”. A verdade, como sempre, é mais complexa. Ao mesmo tempo que a questão é simples, e se resume aos limites legais. Os jovens do rolezinho buscam diversão – mas, quando essa diversão provocar perturbação da ordem, os lojistas têm o direito de chamar a polícia, que cuida da ordem pública. Do outro lado, os comerciantes têm o direito de proteger seu ganha-pão – mas, se agirem de forma preconceituosa, terão de responder à lei brasileira. Respeitadas as regras básicas da convivência democrática, todos têm o direito de trabalhar, se divertir – ou protestar pacificamente, se quiserem.

Matheus Batista – de 16 anos e 47 mil fãs no Facebook – estava no Shopping Metrô Itaquera em 11 de dezembro. Com outros cinco amigos, queria encontrar algumas meninas. Não teve chance. Pouco depois de sua chegada, começou a confusão: “A gente foi lá para curtir. Mas os caras começaram a roubar os bonés dos outros, e saiu muita briga”, diz. Matheus estava com um grupo de amigos no banheiro quando um segurança apareceu. “Ele falou que ia quebrar a gente. Mas saiu sem fazer nada”, diz. “Eu entendo o lado dele. Tinha muita gente bagunçando.” Morador de Itaquaquecetuba – distante uma hora e meia de Itaquera –, Matheus se diverte indo ao shopping e a bailes funk e não desistiu dos rolezinhos. Disse que irá aos próximos: “Foi maneiro’.

Todos contra a violência (Foto: Adriana Spaca/Brazil Photo, Alex Gouvêa/Futura Press/Folhapress e Marcelo D’Sants/Frame/Folhapress)
Fonte: Época

 

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